segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Extrema-direita francesa acusa partidos de 'amordaçar democracia'


A extrema-direita francesa acusou neste domingo os dois principais partidos do país de "amordaçar a democracia", ao tentarem excluir a sua candidata das próximas eleições presidenciais. Apesar do grande apoio público, Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, disse na semana passada que ainda faltavam 150 assinaturas das 500 necessárias de autoridades locais eleitas para ela concorrer.
Louis Alliot, partidário de Le Pen, representante da Frente Nacional, sugeriu que os partidos do "establishment" estimulavam indiretamente as autoridades a não apoiar a pré-candidata. "Há cálculos políticos com o objetivo de amordaçar a democracia e prevenir a oposição ao 'establishment'", afirmou.
Le Pen está em terceiro nas pesquisas de opinião, com entre 15% e 20% das intenções de voto. As eleições estão previstas para 22 de abril, o primeiro turno. A expectativa de Le Pen é alcançar o segundo turno, assim como conseguiu o seu pai, Jean-Marie, em 2002.
Alliot afirmou que sugestões feitas pelos dois principais partidos, os conservadores no governo e os socialistas na oposição, de que não há problemas com o atual sistema são revoltantes. "Parece que o 'establishment' está tentando impor a ideia de que a ausência de Marine Le Pen não seria um problema", disse ele, em comunicado.
Os pré-candidatos têm até 16 de março para assegurar as assinaturas suficientes para concorrer. Le Pen levou o seu caso contra a regra de 1976 para a Corte Constitucional, que deve decidir até 22 de fevereiro. De acordo com uma pesquisa de opinião publicada por um jornal neste domingo, o atual presidente, Nicolas Sarkozy, seria o principal beneficiado se Le Pen não participar das eleições. Opositores da extrema-direita afirmam que Le Pen está blefando, que estaria dizendo que não tem o apoio suficiente para se promover e se diferenciar dos principais partidos.

Álcool é a droga que mais mata

Em apenas cinco anos, entorpecentes lícitos e ilícitos tiraram a vida de cerca de 40 mil pessoas que faziam uso dessas substâncias
Publicado em 05/02/2012 | Anderson Gonçalves A cada ano, cerca de 8 mil pessoas morrem em decorrência do uso de drogas lícitas e ilícitas no Brasil. Um estudo elaborado pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM) aponta que, entre 2006 e 2010, foram contabilizados 40,6 mil óbitos causados por substâncias psicoativas. O álcool aparece na primeira colocação entre as causas, sendo responsável por 85% dessas mortes. É nesse segmento que o Paraná se destaca negativamente, sendo o estado detentor da quarta maior média de óbitos nesse período.
Para elaborar o estudo, a CNM coletou dados do Sistema de In­­formações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, que reúne e consolida os óbitos no território brasileiro conforme os locais da ocorrência e de residência do indivíduo. De acordo com o levantamento, as 40.692 pessoas morreram no Brasil vítimas do uso de substâncias como álcool, fumo e cocaína. E os dados podem estar subestimados, conforme a própria confederação, devido à complexidade de registros no SIM e pelo fato de não serem contabilizadas mortes causadas indiretamente pelo uso de drogas, como acidentes de trânsito e doenças crônicas. No estudo foram contabilizadas mortes em decorrência de envenenamento (intoxicação), transtornos mentais e comportamentais

Drogas ilícitas são minoria dos casos
Quando se fala em drogas, substâncias ilícitas, como cocaína e crack, costumam ser as mais lembradas. Segundo o levantamento da CNM, contudo, elas são responsáveis por uma parcela mínima das mortes causadas diretamente pelo seu consumo. Juntos, o álcool e o fumo, drogas vendidas e consumidas legalmente, representam 96% dos mais de 40 mil óbitos contabilizados nos últimos anos.
Ao todo, 4,6 mil pessoas morreram em consequência direta do cigarro, sendo 242 delas no Paraná. Um número que não é tão preocupante quanto o álcool, visto que o índice de mortes verificado no estado é de 0,020, o qual lhe garante a 11ª colocação. Adultos e idosos (entre 40 e 80 anos de idade) do sexo masculino estão entre as principais vítimas do tabaco no país. “Uma constatação como essa pode contribuir significativamente para uma avaliação quanto ao acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS), no caso de ações de apoio ao tabagista”, diz o estudo da CNM.
Em terceiro lugar nas causas de morte estão outras substâncias psicoativas. Foram 480 óbitos, dos quais 57 no Paraná. Ainda aparece a cocaína, responsável por 354 mortes, sendo 23 no estado. (AG)
Mortes indiretas elevariam os números
Se o número de 40 mil mortes em cinco anos já é considerado preocupante, é preciso lembrar que ele representa apenas uma parcela dos óbitos em consequências do uso de drogas no Brasil. O estudo levou em consideração somente as mortes em que o consumo de substâncias psicoativas foi apontado como causa direta. Ou seja, existe um contingente ainda maior de óbitos não contabilizados que podem entrar nessa relação.
Com base no Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, foram selecionadas as ocorrências a partir do que indicavam os atestados de óbito. Dessa forma, não foram contabilizadas as mortes decorrentes de doenças crônicas ou acidentes de trânsito. “Dos casos de câncer de pulmão, 95% são decorrentes do fumo. Grande parte dos acidentes com morte é causada por motoristas embriagados. O número de mortes relacionadas a drogas é extremamente superior aos dados formais”, observa o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski.
Para o médico Élio Mauer, o álcool se constitui na mais perigosa das drogas porque, além de ser legalizada, pode dar origem a uma série de outros problemas. “Além das mortes por acidentes de trânsito, temos as doenças decorrentes do uso contínuo , como as hepáticas, que podem matar”, diz. A depressão muitas vezes também está associada ao consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas. (AG)
Grande parte das mortes contabilizadas no estudo, 34,5 mil, ocorreram em decorrência do uso de álcool. Somente no Paraná, foram 2.338 vítimas. É o estado com o quarto maior índice em proporção à população, ficando atrás somente de Minas Gerais, Ceará e Sergipe. Dois municípios paranaenses aparecem na r elação das dez maiores médias do país. São José das Palmeiras, na Região Sudoeste, é o sétimo com um índice de 0,304, enquanto Antônio Olinto, no Centro-Sul, vem a seguir, com 0,294.
Consequências
Para o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, os números contidos no estudo são alarmantes. “Estamos mostrando esses dados para estimular a reflexão da sociedade, a fim de que ela tenha uma dimensão do problema e se organize para tentar ao menos amenizá-lo”, afirma. As prefeituras, instituições que a CNM representa, são apontadas por ele como as mais afetadas por esse problema. “O doente crônico de drogas demanda muito de assistência, que cabe ao município prestar. Ou seja, é mais uma bomba que cai no colo das prefeituras”.
Gerente da Unidade Inter­­me­­diária de Crise e Apoio à Vida e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o médico Élio Mauer acredita que tais números são um reflexo da falta de ações preventivas. “Muitas dessas mortes poderiam ser evitadas se houvesse a consciência de que o álcool leva a uma série de problemas. E não é preciso morrer para perceber os efeitos nocivos da droga”, diz, citando como exemplo os usuários que habitam as chamadas cracolândias. “Aquelas pessoas não estão mortas, mas será que estão realmente vivas?”, questiona.
Na opinião do psiquiatra Da­­goberto Re­­quião, os dependentes químicos encontram-se de­­sas­­sistidos no Brasil, o que leva a um al­­to nú­­mero de óbitos pe­­lo uso de drogas. A im­­plantação dos Centros de Atendimento Psicos­­social (CAPS), destinados a receber esses pacientes, se mostrou ineficiente, segundo Requião “Quando temos uma estrutura pública sem capacidade para atender minimamente o número de usuários existente, o resultado é essa quantidade as­­sus­­tadora de mortes.”
Redução exige trabalho em conjunto
A redução na quantidade de mortes ligadas ao consumo de drogas passa necessariamente por um trabalho conjunto de diferentes segmentos, que vão desde o poder público até as próprias famílias. Essa é a opinião do presidente da Confederação Nacional dos Municípios, Paulo Ziulkoski, que, a partir da divulgação do estudo, pretende cobrar das autoridades atitudes mais sólidas no combate e prevenção ao uso de substâncias psicoativas. “Se não houver uma ação integrada, jamais conseguiremos reduzir esses números”, diz.
Para o dirigente, entre as medidas que deveriam ser adotadas estão maiores investimentos no tratamento de dependentes e ações preventivas nas escolas. “Mas como fazer prevenção se o governo federal, que é o maior arrecadador de impostos, diz que não tem mais dinheiro para aplicar em saúde?”, questiona Ziulkoski.
O psiquiatra Dagoberto Re­­quião classifica o problema das drogas no Brasil como algo “quase insolúvel”. Além de investir no tratamento de dependentes químicos, incrementar as ações de repressão ao tráfico nas fronteiras é para ele a medida fundamental. “A sociedade precisa se conscientizar da gravidade da questão e cobrar providências. Esse é um problema que não pode ser enfrentado de forma segmentada, exige uma conjunção de forças”.

Gastos mostram que aumentar verba não era necessário

Deputados gastaram em 2011 menos do que no ano anterior, mas mesmo assim presidente insistiu em dar reajuste em verbas de gabinete

O gasto médio dos deputados estaduais com a verba de ressarcimento caiu na comparação entre 2010 e 2011, o que mostra que não havia necessidade de aumento do subsídio, como determinou o presidente da Assembleia, Valdir Rossoni (PSDB). A partir deste ano, a cota mensal para subsídio das atividades parlamentares passará de R$ 15 mil mensais para R$ 17,2 mil – também houve reajuste nas cotas de transporte aéreo e de telefone. Rossoni disse que o aumento de 14,6% era necessário porque o valor estava congelado desde julho de 2009. Com a mudança, a verba de ressarcimento custará R$ 1,5 milhão a mais aos cofres públicos por ano. Ao todo, o custo extra será de R$ 2,7 milhões.
Em 2010, os deputados gastaram em média R$ 14,7 mil, contra R$ 14,6 mil em 2011. O detalhamento desses valores mostra de forma mais clara que o aumento era desnecessário. Entre janeiro e novembro de 2010, a verba de ressarcimento média foi de R$ 14 mil. No mesmo período de 2011, o valor caiu para R$ 13,1 mil. Em dezembro de 2010, quando muitos parlamentares comemoravam a reeleição ou se despediam do trabalho na Assembleia, o gasto foi recorde: R$ 21,9 mil, em média. No último mês de 2011, o ressarcimento médio ficou em R$ 17,7 mil, queda de 19%.
Ranking
Peemedebista é campeão em uso de verba
Nereu Moura (PMDB) foi o deputado que mais gastou na Assembleia Legislativa em 2011. Ele não se surpreendeu com a colocação no ranking. “Procuro desempenhar meu mandato com todo o empenho. Cada um tem um estilo de trabalho, e o meu é esse”, diz. Atuante nas regiões Sudoeste, Centro-Oeste e Oeste, Moura revela viajar entre 64 municípios localizados nessa região. “Só faço política em municípios pequenos.
Por isso, os meus votos são pulverizados”, diz.
Para rodar entre essas cidades, Moura apresentou notas fiscais de R$ 44,3 mil pelo gasto com combustíveis; R$ 32,3 mil com alimentação; R$ 23 mil na divulgação da atividade parlamentar e R$ 31,6 mil em gráficas e reprografias em 2011. “Eu gastei dentro do que é permitido, na mais absoluta legalidade. Como sou municipalista e represento uma área muito abrangente, o custo é elevado para desempenhar meu mandato”, diz.
Por outro lado, quem menos usou a verba de ressarcimento da Assembleia foi o deputado Alexandre Curi. As notas fiscais apresentadas por ele somam R$ 132.765,02. Ele tinha o direito de gastar R$ 180 mil.
Maior despesa foi com combustíveis e alimentação
Combustível, alimentação, gráficas e divulgação representam 60% dos gastos dos deputados estaduais com verba de ressarcimento. Dos R$ 9,1 milhões gastos entre fevereiro e dezembro, R$ 2,1 milhões foram para abastecer veículos. Pelas normas da Assembleia, cada deputado pode gastar até R$ 5 mil por mês (30% da verba mensal) com combustível.
Gasto total de verba de gabinete subiu para R$ 9,1 milhões
Valor subiu em função de dois secretários de Estado continuarem tendo direito a usar verbas de gabinete na Assembleia.

Os deputados gastam mais em dezembro porque a verba de ressarcimento é acumulativa. Quando economizam em um mês, podem gastá-lo no outro. Portanto, o limite anual é, na realidade, o teto de R$ 180 mil por deputado. E, para não desperdiçar a verba a que tem direito, muitos parlamentares extrapolam no último mês. Apesar do recesso legislativo, não há restrição de gasto.
Com o reajuste concedido por Rossoni, a tendência é de que os deputados elevem os gastos, mesmo sem necessidade. “Esse aumento só tem conotação negativa. Se o valor não é gasto totalmente, não há necessidade de aumento”, observa o professor Denis Alcides Rezende, especialista em administração pública e professor do Doutorado em Gestão Urbana da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Segundo ele, o valor de R$ 15 mil já era alto para subsidiar a atividade parlamentar. “O aumento vai de desencontro à necessidade de redução dos gastos e de maior transparência na máquina pública. Para o aspecto da gestão, quanto menos dinheiro for usado, melhor.”
De acordo com o cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná Fabrício Tomio, a alta nas despesas no fim do ano mostra que, na medida em que os deputados observam a disponibilidade dos recursos, tentam executá-los. Na avaliação do presidente da seção paranaense da OAB, José Lucio Glomb, o gasto maior no fim do ano mostra uma incongruência. “Revela a falta de um critério mais claro, porque jamais poderia oscilar dessa maneira. Com isso, passa a impressão de um planejamento artificial, já que dezembro é um mês normalmente de baixa produtividade na Assembleia”, critica.
Outro lado
O reajuste de 14,6% corresponde ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acumulado entre julho de 2009 e o início de 2012. Valdir Rossoni vem ressaltando que os deputados podem economizar, e não são obrigados a gastar o valor total. Além disso, a assessoria da Assembleia ressaltou que o ressarcimento somente é pago após o parlamentar comprovar os gastos, e que nenhum valor é depositado previamente.

MP-PR recomenda à Sercomtel que invalide contratação de agência

O Ministério Público do Paraná, por meio da Promotoria de Justiça de Proteção do Patrimônio Público de Londrina, expediu na sexta-feira (3) Recomendação Administrativa à Presidência da Sercomtel para que proceda a invalidação da contratação de uma empresa de publicidade para prestar serviços à companhia.

A Intervox Sistema de Comunicação Integrada foi contratada diretamente, por intermédio de dispensa de licitação, por R$ 3.355.416,31. Uma cópia do documento também foi encaminhada ao Prefeito da cidade e à Presidência da Câmara Municipal.

Na recomendação, os promotores orientam que, além de invalidar todo o procedimento, caso seja necessária uma nova contratação, que a Sercomtel observe "os limites estabelecidos no art. 24, inciso IV da Lei de Licitações, ou seja, a existência de situações concretas (e não genéricas) e imediatas que identifiquem o caráter emergencial da contração direta, por dispensa de licitação", bem como "resguarde o princípio da igualdade e impessoalidade, oportunizando a outras empresas de publicidade eventualmente interessadas na prestação dos serviços a serem contratados em caráter emergencial, que apresentem propostas à empresa pública Sercomtel".

Os responsáveis pelo caso são os Promotores de Justiça Renato de Lima Castro e Leila Schimiti Voltarelli.

Irã: vizinhos usados por 'inimigo' estarão 'sujeitos a retaliação'



O Irã poderá atacar qualquer país cujo território for usado por "inimigos" para lançar um ataque militar contra seu solo, disse o segundo na hierarquia da Guarda Revolucionária do Irã à agência de notícias semioficial Fars neste domingo.
"Qualquer ponto usado pelo inimigo para operações hostis contra o Irã estará sujeito à retaliação pelas nossas forças armadas", afirmou Hossein Salami. A Guarda Revolucionária começou exercícios terrestres de dois dias no sábado, como uma demonstração de seu poderio militar em um momento de aumento da tensão entre Teerã e o Ocidente sobre o polêmico programa nuclear iraniano.
Os Estados Unidos e Israel, inimigos declarados do Irã, não descartam um ataque militar a Teerã se a diplomacia falhar em resolver o impasse nuclear. O Irã afirma que seu programa é pacífico e não tem o objetivo de desenvolver armas. Os seis aliados dos americanos no Conselho de Cooperação do Golfo têm afirmado que não permitirão que seus territórios sejam usados para ataques ao Irã.

Morre István Csurka, escritor e líder ultradireitista húngaro


O polêmico escritor húngaro e fundador do partido ultradireitista MIÉP, István Csurka, morreu aos 78 anos em Budapeste, informou neste sábado a agência de notícias "MTI", que cita fontes de sua família.
Csurka foi internado há várias semanas e, até o momento, as causas de sua morte não foram informadas.
Nos últimos meses, o escritor despertou fortes protestos no mundo artístico da Hungria por ter sido nomeado responsável do programa do "Teatro Novo" (Új Színház) de Budapeste, apesar de sua ideologia ultranacionalista.
Sua designação acabou sendo revogada pelo prefeito de Budapeste, István Tarlós, do partido conservador nacionalista Fidesz, por considerar "incompatíveis com a cultura europeia" os conteúdos antissemitas publicados pela revista "Magyar Fórum" (Fórum Húngaro), dirigida por Csurka.
Nascido em 1934 em Budapeste, em 1987 o escritor e editor foi um dos fundadores do "Fórum Democrático" húngaro, partido democrático que ganhou as primeiras eleições legislativas após a queda do comunismo em 1990.       
Devido a divergências com seu partido, fundou em 1993 o MIÉP (Partido Húngaro da Justiça e da Vida), com o qual conseguiu 5% dos votos nas eleições de 1998, formando um grupo parlamentar próprio que dirigiu até as eleições de 2002.
Csurka estudou dramaturgia na Escola Superior de Artes de Teatro e Cinema de Budapeste, e sua carreira de escritor foi reconhecida com vários prêmios estatais durante o comunismo.
Como político, sua carreira foi menos bem-sucedida, já que após 2002 o radical e eurocético MIÉP não conseguiu obter o apoio mínimo para entrar no Parlamento.
 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Quando fala da Rússia, Ocidente pratica “ignorância voluntária

Ilustração: Natália Mikhailenko
Boris Tumanov

Ao escrever sobre a Rússia, veículos internacionais de prestígio não se dão ao trabalho de conhecer melhor a realidade do país e fazem, não raro, conclusões absurdas, demonstrando assim não apenas suas ideias preconcebidas da Rússia, mas sua preguiça intelectual.
Os protestos contra o resultado das eleições parlamentares de dezembro passado causaram, como se esperava, uma nova onda de tentativas esporádicas da imprensa ocidental de compreender o que se passa na Rússia. Eu, por exemplo, fui abordado, durante vários dias seguidos por quase todos os meios de comunicação social francófonos para falar sobre o que se passava na Rússia. Para minha surpresa, o interesse se limitava a questões secundárias e não demonstrava o desejo de compreender as causas dessa manifestação sem precedentes na Rússia.  
Minhas suposições se confirmaram após o comício na avenida Acadêmico Sákharov, quando meus interlocutores, como se tivessem combinado de antemão, começaram a me perguntar por Aleksêi Naválni, apresentando-o como figura política importante, e sobre a declaração de Mikhail Gorbatchev em que o ex-líder soviético desafiou Vladímir Pútin a renunciar.
Tentei explicar a meus interlocutores que os aplausos que Aleksêi Naválni recebeu na praça Bolôtnaia e a passionalidade com que ele falou no comício ainda não significam que ele seja um líder reconhecido da oposição russa. Tentei explicar a meus colegas estrangeiros que os russos, cuja maioria continua favorável a Pútin, não precisam de apelos para “ir e tomar o Kremlin” ocupado por “vigaristas e ladrões”. Eles precisam de uma oposição que não só saiba gritar slogans mas também seja capaz de expressar e defender os interesses de determinadas camadas sociais. Por isso, por mais que eu respeite Mikhail Gorbatchev, acho que seu desafio lançado a Pútin não tem razão de ser.
Aconselhei meus colegas estrangeiros a prestar atenção ao fenômeno de Aleksêi Kúdrin e seu programa de desenvolvimento evolutivo da sociedade civil na Rússia, pedindo-lhes que não encarassem Naválni e Kúdrin como  líderes da oposição, mas como sintomas dos processos iniciados na sociedade russa. Ainda assim, meus interlocutores continuaram martelando os temas de seu interesse e não desejaram desperdiçar seu tempo com uma análise mais profunda da situação vivida em meu país. Mais do que isso, quando, depois da entrevista, eu quis explicar-lhes melhor minha postura, todo o meu discurso foi em vão. Eles não quiseram falar sobre assuntos que, em sua opinião, não teriam impacto.
Essa falta de curiosidade e de interesse pelos assuntos sobre os quais escrevem levou muitas publicações de prestígio a fazer conclusões absurdas e, o que é ainda pior, peremptórias.
Basta citar como exemplo o semanário norte-americano “Business Week”. Esse periódico não encontra um outro líder para a oposição russa senão o ex-campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, porque ele, no entender do semanário, é o “único representante do movimento oposicionista reconhecido internacionalmente”. Outra publicação americana, o “Chicago Tribune”, afirma que Vladímir Pútin está muito bem familiarizado com o tratado de Sun Tzu “A Arte da Guerra”, partindo da tese de que Pútin usa contra seus oponentes a falta de organização que lhes é inerente, em plena conformidade com as recomendações do pensador chinês.
Essa ignorância voluntária, se podemos usar aqui essa expressão, é típica não só dos meios de comunicação de massa mundiais, mas também de todas as chancelarias políticas. A ignorância das diferentes realidades existentes nos países pode induzir a erros em assuntos políticos, como aconteceu com o Ocidente na Líbia e com a Rússia na Ossétia do Sul.
Quanto à tese de que o Ocidente encara inadequadamente a Rússia, tomo a liberdade de dizer, correndo o risco de causar indignação entre os adeptos da teoria de “conspiração mundial” contra a Rússia, que é resultado de uma preguiça intelectual e não de uma atitude preconcebida dos países da região. Em certa medida, é também uma consequência do comportamento da Rússia, que durante setenta anos se manteve impermeável ao mundo externo, impedindo-o de conhecer sua realidade de fato e não aquela inventada no departamento ideológico do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética.
Por mais aberta que esteja agora a sociedade russa, o Ocidente não deixa de encarar o país através do prisma de estereótipos obsoletos, sejam eles negativos ou positivos, não se dando ao trabalho de se desligar das associações habituais primitivas como caviar, Dostoiévski, balalaika, vodca, dissidentes, KGB, oligarcas, matriochka e marinheiros revolucionários. Sua preguiça intelectual já impediu os países ocidentais de compreenderem as causas reais da desagregação da URSS e os acontecimentos posteriores. Hoje, ignorante e pragmático, o Ocidente está cometendo o mesmo erro, pensando que os processos de globalização conduzirão, mais cedo ou mais tarde, a humanidade a um denominador democrático comum.
Com efeito, só aquele que vive em um mundo irreal pode realmente acreditar que Garry Kasparov tem reconhecimento internacional como líder da oposição russa, ignorando o fato de a maioria dos russos não se interessar em saber quão populares são seus políticos nos “círculos internacionais”.
Se o Ocidente - e especialmente a Europa - quer realmente ver, num futuro mais ou menos distante, uma Rússia civilizada, deve aprofundar com paciência seus conhecimentos sobre a sociedade russa, se desligar das noções estereotipadas e primitivas sobre o país e não atender às demandas dos “microliberais” russos. Devem parar de ser preguiçosos e começar a estudar profundamente os processos sociais cada vez mais complicados em curso na Rússia. Devem compreender finalmente que os processos operados na Rússia não se encaixam, por razões óbvias, em sua experiência histórica, que tanto citam para desculpar sua relutância em analisar as causas dos “caprichos exóticos” da mentalidade russa e da evolução social do país.
Isso tudo é importante não só para a Rússia, mas também para o Ocidente, pois a alternativa ao processo de afirmação de uma sociedade civil iniciado pela primeira vez na sociedade russa poderá ser o retorno imediato do país ao autoritarismo e à política de isolamento.